Decolonizando a Educação Científica e Tecnológica

Domingo, Agosto 2, 2026
Português, Brasil
Esta coletânea é atravessada por inquietações que não são apenas acadêmicas, mas também profundamente políticas e éticas: que ciência e tecnologia ensinamos? A quem elas servem? Quais vidas elas reconhecem — e quais continuam a silenciar? O livro “Decolonizando a Educação Científica e Tecnológica” é fruto do “II En- contro Internacional Decolonizando a Educação Científica e Tecnológica (II EDECT), que ocorreu em fevereiro de 2026, em Florianópolis, na Universidade Federal de Santa Catarina. Contou com a provocativa e atual temática “Políticas Curriculares e Negacio- nismo Científico na Educação”. Foram apresentados 139 trabalhos e seus resumos estão publicados nesse link: https://www.even3.com.br/anais/edect-615605/ O evento foi organizado por pesquisadoras e pesquisadores da área de Educação em Ciências, com apoio da CAPES, do CNPq e do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica da UFSC, com o objetivo de promover o intercâmbio acadêmico e fortalecer redes de pesquisa dedicadas ao estudo de perspectivas críticas e decoloniais na Educação em Ciências e Tecnológica. A diversidade de temas no evento como um todo e nestes 48 textos completos, aqui apresentados, registra a pluralidade de pesquisas, reflexões e experiências comparti- lhadas, favorecendo a reflexão crítica sobre os processos de produção e ensino do conhe- cimento científico, contribuindo para a construção de perspectivas educacionais mais inclusivas, plurais e socialmente comprometidas Os capítulos deste livro foram organizados em seis eixos temáticos, a obra se constitui como um espaço de tensionamento e criação. Tensionamento porque explicita as marcas da colonialidade ainda presentes nos currículos, nas políticas educacionais 23 e nas práticas de ensino de Ciências. Criação porque aponta fissuras, deslocamentos e possibilidades outras, construídas no diálogo com diferentes territórios, conhecimentos e sujeitos — especialmente no Sul Global. No primeiro eixo temático, Currículos da Educação em Ciências: histórias e polí- ticas educacionais, o currículo emerge como arena de disputas, onde projetos de sociedade se confrontam. Os artigos evidenciam como documentos normativos, como a BNCC e po- líticas curriculares regionais, operam tanto na produção de sentidos quanto na legitimação de determinados conhecimentos em detrimento de outros. Ao mesmo tempo, denunciam silenciamentos históricos — das relações étnico-raciais, dos saberes indígenas, das populações do campo, das águas e das florestas — e problematizam fenômenos contemporâneos, como o negacionismo científico e climático. Nesse movimento, diferentes referenciais teóricos — como a análise do discurso e o materialismo histórico-dialético — são mobilizados para compreender e enfrentar tais processos. As experiências situadas em Timor-Leste ampliam esse debate ao evidenciar os desafios de construção curricular em contextos marcados por histórias coloniais e por intensos processos de reinvenção educativa. O eixo Divulgação científica e educação em espaços não escolares, nos con- vida a deslocar o olhar para além da escola, reconhecendo que a produção de sentidos sobre a ciência também se dá em outros espaços, linguagens e experiências. A arte, nesse contexto, não aparece como adorno, mas como gesto político, como possibilidade de ruptura com formas hegemônicas de dizer e fazer ciência, abrindo caminhos para sensi- bilidades, afetos e epistemologias outras. Em Educação em Ciências, questões socioambientais e de saúde, os artigos enfrentam as urgências do nosso tempo sem dissociá-las das estruturas que as produzem. As crises ambientais, as desigualdades sociais e os debates sobre saúde são compreendi- dos como dimensões interligadas, que exigem uma educação científica comprometida com a vida em sua pluralidade. Ao valorizar saberes populares, práticas tradicionais e experiências territoriais — como o uso de plantas medicinais e as narrativas locais —, os trabalhos questionam a pretensa neutralidade da ciência e reivindicam justiça epistêmi- ca, ambiental e social. Aqui, a colonialidade se materializa em práticas que não apenas criticam, mas constroem alternativas enraizadas nos contextos em que se inserem. No eixo Formação docente em Educação em Ciências, a formação de profes- sores é entendida como processo inacabado, atravessado por contradições, desafios e possibilidades. Os artigos destacam a construção da identidade docente, as experiências 24 em contextos como a Educação de Jovens e Adultos, a interiorização da formação e o uso crítico das tecnologias. Ao mesmo tempo, tensionam questões contemporâneas, como a presença da inteligência artificial na educação, convocando uma reflexão ética e política. As experiências em Timor-Leste reforçam a potência do diálogo intercultural e a necessidade de romper com modelos formativos importados e descontextualizados. O eixo Inclusão, gênero e interseccionalidades na Educação em Ciências rea- firma que não há neutralidade possível quando se trata de educação. Os artigos evi- denciam como diferentes marcadores sociais — raça, gênero, classe — atravessam a produção e o acesso ao conhecimento científico, produzindo exclusões sistemáticas. Ao mesmo tempo, apontam caminhos para práticas pedagógicas que reconheçam e valori- zem a diversidade, ampliando as possibilidades de participação e de autoria na ciência. Por fim, em Linguagens, culturas e educação científica, os artigos expandem as fronteiras do que se entende por conhecimento científico. Ao dialogar com a etnoma- temática, as narrativas, a arte, a ancestralidade e as práticas culturais, os textos desafiam o cientificismo e o eurocentrismo que historicamente marcaram o campo. São expe- riências que afirmam a pluralidade de modos de conhecer e que apostam na construção coletiva de saberes, inclusive com as infâncias, rompendo com lógicas adultocêntricas e hierarquizantes. Ao longo da obra, o que se evidencia não é apenas a crítica à colonialidade, mas a construção de outras possibilidades de existência na Educação em Ciências. Trata-se de um movimento que exige escuta, diálogo e, sobretudo, compromisso. Compromisso com os sujeitos historicamente marginalizados, com os territórios e com a produção de conhecimentos que não apenas explicam o mundo, mas contribuam para transformá-lo. Esta coletânea, portanto, não se pretende neutra. Ela se posiciona. E, ao fazê-lo, convida quem a lê a também se posicionar. Agradecemos a participação de todas e todos e espe- ramos que seja uma uma leitura bastante profícua para o campo da Educação Científica e Tecnológica. Suzani Cassiani Coordenadora Geral do II EDECT PPGECT-UFSC
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